segunda-feira, 25 de julho de 2011

Comezinhas e prendas

Tinha um amigo extremamente interessante. Todas as vezes que se encontravam, Rita se certificava de que ele era quase perfeito. E que obviamente não deveria constar na categoria amigos, fora o fato de que conversavam muito. Nossa, mãe! Falavam tanto, conseguiam entrelaçar tantos assuntos, e gostavam tanto do jeito que um encarava determinada situação que a tensão ficava espremida entre um quê de admiração e outro de orgulho.
Era sem dúvida o maior amor que poderia existir. Não se queriam experimentar por medo de um dia terem que optar pela distância ou pela mágoa. Seria pior estarem distantes, sem pelo menos as opiniões e os sorrisos acolhedores que davam quando estavam juntos. Às vezes ela tinha vontade encostar seus lábios nos dele devagar, com intensidade, principalmente mesmo quando ele sorria. Nossa. Mas logo cerceava o sentido. Ele repetia várias vezes a mesma frase ou o mesmo assunto. Qualquer narrador dessa história afirmaria que era para alongar a conversa, a estadia ao lado dela.
Um dia nublado, nesse tal de chove não molha, conseguiram ficar mais de 6 horas a fio conversando, cheios de bons humores. Era recíproco, mas platônico.

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Doída

O amor comprometido é a pior coisa que pode existir, Turmalina. Aquele comprometido em dar certo, fica junto só por causa da insistência em dar certo. Já senti e vi amores assim.
Eu sei.
Em alguns momentos todos nós trombamos com pessoas assim, fazendo do amor a missão de suas vidas. Como se fosse dominável e pragmático como trabalhar.
Também já vi. Inclusive tentei um amor assim. Mas você sempre condena tanto o amor, principalmente pessoas que fazem sacrifícios por ele... Nunca imaginei que tivesse um dia se comprometido a tal ponto...Sempre achei que quando lhe caísse o sentido de que o sentimento estava torto, você simplesmente abriria a porta e sairia.
Engraçado você assim falar assim de mim, Turmalina. Na verdade, na verdade, você não sabe como sou em relacionamentos. A gente tem quanto tempo de amizade? Um ano? Se tivesse mais nem seria tão formal nessa conversa com você.
No bem da verdade, só estou explicando aqui minha concepção de amor por causa disso. Se soubesse meus tropeços por homens monótonos, iria entender onde quero chegar. Me cansa, só de falar. O pior é que nem posso te cobrar, porque você é bem mais nova que eu.
Tudo bem, nem precisa falar desse jeito, Rita, como se ofendida por não sermos mais íntimas. Estranho isso, você é uma pessoa intrigante.
Mais uma vez provando que você não me conhece, Turmalina.
Mas, venha aqui! Nós estamos desabafando como mulheres ou brigando por sei lá o quê? Você está muito amarga, como alguém que tivesse ficado para a titia. Sem esperanças de viver milhões de vezes um grande amor.
E você fala como se eu acreditasse nisso. Turmalina, não acredito nem no amor comprometido em dar certo nem no amor que flui como uma cantiga hippie esperando o vento bater naqueles vestidos longos e de tecido leve, próprios das mulheres que se entregam ao amor. Eu visto vestidos no joelho, práticos para o trabalho, para a diversão e encontros familiares. E não gosto de me preocupar que voem ou encurtem quando tenho que me movimentar.
Mas e quando você quer ficar um pouquinho mais sexy, Rita? Sinceramente, do jeito que aqueles carinhas do trabalho olhavam para você, logo quando te conheci, achei que você era a mais cobiçada dali, e de outros lugares, diga-se.
Turmalina, até pode ser, mas não porque eu use sainha na metade da coxa. E quer saber? Me incomoda falar assim. Você sem quê nem pra quê me deixou impaciente. Parece que sou uma mulher amarga.
E é mesmo pra mim. Não tenho essa tipologia do amor como se fosse regra para eu me apaixonar, acho estranho que você tenha. Tão decidida de si, tão afirmativa. Ficar se escondendo em tipos de amor que servem ou não. Muito estranho eu diria. Mas aí você vai vir com essa coisa que sou muito nova e blá. Turmalina, de verdade, deixe essa conversa para outra hora.

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

O Caminho e o Querer





Rita, eu vim aqui só fazer um carregamento, entregar uma encomenda. A menina do Adminitrativo disse que na O.S. tava incluído uns serviços extra. Eu, por mim, faço tudo de bom coração, mas olho a quem. O bom disso tudo foi te ver, esse seu rostinho mudado e sempre sorridente. Tereza disse que achou você um pouco ansiosa, de quê não sei. De me ver? Eu queria. É tudo de bom mesmo que eu quero para você, com tanto amor...Como você diz, tudo de bom que você possa carregar, porque na usura da azar. Eu aprendi demais com você e quando lembro, até aqui falando, dá engasgo.
Eu adoro lembrar que quando lhe ver pode ser a roupa que for, o penteado que for, o dinheiro que for ou nenhum dinheiro, porque o sorriso se veste por dentro. Não tenho parada aqui, Rita. Foi só uma encomenda mesmo para entregar, mas a gente que vive na estrada sabe que cada caminho vale o que demora para chegar. E esse agora valeu um tanto por aquele abraço e aquele carinho no cabelo, tímido, que você costuma fazer quando ama e que ainda em sacodem de manhã para acordar. O pior de ter terminado esse serviço é ver que quando ligo o motor do caminhão o rio de mim transborda e eu fico com medo dos filetes de água escorrerem pela terra do meu rosto afora e os cabra dizer que qualquer coisa me tira o brio. Mas também, isso diante daquele sorriso abestalhado que me vejo nos seus olhos, não é nada não.
Rita, se eu conseguisse, queria dizer algo importante agora, meio de poeta, porque tenho que prestar contas para a menina do Administrativo daqui a pouco. Era assim, de dizer que, quando a gente nasce existe um caminho para caminhar e um desejo para querer. Eu sinto e sei quando vejo uma criança que tem um querer diferente do caminho, mesmo sem saber. Quando ela cresce e derruba mato com facão, doma bicho selvagem, chora sentado e levanta preparado, com a sina de chegar naquele querer. E quando chega, Rita, quando rebenta aquela vida sincera toda... É o dom da gente, Rita, se fazendo. Não esqueça disso, não. Eu já vou, mas levo tudo aqui dentro de mim, encarnado, cada pedaço.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Pipoca de minduim

#Bresson
Ai ai ai Ritinha! Essa sua maneira de dizer que sou único na sua vida me deixa rendido. É tanto carinho, tanto fuxirico e mão que quando estou longe de você fico arrepiado se me cubro com o lençol. Sou assim romântico de versos tronchos e derretido por esse seu sorriso. Ritinha, se todo dia eu te levasse para um lugar diferente você ia ficar com saudade dessa minha frequencia de sempre te surpreender?
Me ame tanto. Que eu sem nem saber porque quero fazer esses versos tortos a vida inteira para dizer mesmo desse sentir eterno que tenho por você. Só pode ser sentimento eterno e não quero que acabe nunca. Mesmo quando eu fecho os olhos e faço força com as mãos, não acaba. Sentimento assim é bom de ter e se fosse mesmo ruim que nem a gota serena, já teria matado o negócio dentro de mim. "Matei não, nasceram rosas amarelas dentro do meu sertão". Viu, faço até verso de Repente que nem torto é.
É você Ritinha inundando meu minduim de sorriso celeste. Eu ia caminhar 4.000 quilômetros só para dizer que quero você, da calçada da rodoviária, você na janela, e eu vendo o ônibus partir. Viu? Não tem nem essa história de beijo, Ritinha. Se eu visse seu sorriso pelo espelho da janela, você olhando para mim e dizendo tchau, eu jogava aquele saco de pipoca todinho para cima. Nunca imaginei tão troncho que eu ia ficar e alegre de tá troncho. Mas não fique achando que você é a manteiga toda do meu pão, porque eu quero ficar assim, me faz bem demais ficar troncho com seu sorriso...Ritinha. Fui eu que quis!

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Permissão


Não me esqueço quando Bia disse: Ave! Parece que sempre tenho que perdir lincença pro mundo para viver! Bia também foi embora e eu, Rita, acho que foi para ver se achava um lugar onde pudesse acordar sem ter que pedir para viver. Acho que em parte deu certo, não fosse o problema de que quem proibe Bia de viver more do lado esquerdo da cabeça dela. Eu acho também que qualquer pessoa como Bia que vai embora é porque acha como eu. Que o tempo do outro lugar vai começar a contar quando a gente chega lá. E assim você vai poder dizer o que e quando quer as coisas, sem ter que pedir a ninguém.
É muito diferente de quando a gente fica no lugar que nasceu. Aí, na terra natal de qualquer pessoa, a vida já começou faz tempo e quando a corda do relógio foi trocada você nem viu. Ao longo dos anos seus olhos se acostumam com aqueles ambientes e toda vez que sua mãe pinta a casa você sente uma sensação de renovação e felicidade.
Até indo embora e depois voltando para onde você nasceu existe o estranho fenômeno do tempo ter parado no seu relógio todo aquele tempo que você ficou fora, mas do relógio de lá continuar rodando. Resultado, de novo nada acontece no seu tempo. É como se cada vez que o ponteiro dos minutos andasse ele te empurrasse e você, assustado, leva aquele solavanco tentando entender e, de novo, tac! Até que você começa a correr para ficar adiante do ponteiro ou, quem sabe, amigo do senhor que conserta os relógios. Taí, existem duas maneiras de não ser atropelado pelo ponteiro dos minutos. E se você conseguir escapar porque conseguiu correr mais rápido, certamente, deixará de herança uma loja especializada em relógios.
Mas se você aceita correr menos riscos, compra um relógio novo e se despede, já tá tudo combinado lá naquele lugar para começar a funcionar quando você chegar. Todo mundo na rodoviária está parado, o caixa do estacionamento, a senhora que ia pegar o ônibus, a criança que ia deixar o sorvete cair, o moço que ia tomar um café amargo, os namorados que iam se despedir. Ninguém aguenta mais ficar ali parado esperando você chegar, mas, mesmo assim, a imagem congelada de cada um deles sorri. Porque quando você chegar com os ponteiros do seu relógio novo funcionando, todo mundo vai ter a oportunidade de começar de novo. E como todos estavam sorrindo e você com certeza, se foi embora de sua terra com os mesmos sonhos de Bia, vai chegar sorrindo e, quando se entreolharem as pessoas todas, você vai achar que é lá mesmo que você deveria ter chegado.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009


Ela disse a ele que não. E doeu mas nela. Hoje em meio a todas essas reclamações de Rita, ela se maquiou. Hum hum. Antes de ir ao trabalho se maquiou. Base em baixo, pó por cima. Rimel, hoje sem alargador nem extra-volume. Sombra clara, básica, brilhinho sem exagero. A boca deixou para o carro porque tava tudo na bolsa mesmo. Entre um sinal e outro, o retrovisor iria cumprir sua função em carro de mulher. Teve que parar naquele sinal do qual ela nunca se burla. Meteu a mão na bolsa e lembrou que além do brilho tinha ali o duplo. "Hoje não vou só de brilho". Ao mesmo tempo se perguntava para que isso, e toda aquela colônia antes de sair de casa. O lugar não pede, as pessoas muito menos. "Mas eu peço", eu já sabia a resposta dela antes mesmo de perguntar. Impetuosa.
Queria se maquiar porque em seus delírios todo ritual de maquiagem precede invariavelmente a uma cena de amor. Maquiar e perfumar antes de sair porque no final do dia seria buscada na porta e não iria direto para casa. Mentira. Ia para casa e era com ela mesma no volante. O importante, antes mesmo de fantasiar esse final, era se sentir tão bonita que chegava a ser capaz de ver uma boca entreaberta e um olhar investigativo daqueles que paravam à sua frente. E essas pessoas com certeza imaginavam que nunca a viram tão bonita e pensariam, está maquiada? E se fosse homem se perguntaria se era por ele. As mulheres logo diriam que é pelo motivo que os homens pensaram. Nunca pelo motivo real de Rita. Voltou para casa. Ficou imaginando que iria colocar o pijama e sentar no sofá de perna cruzada. Levantar imediatamente depois e pegar alguma coisa para beber, se recostar, respirar fundo e relaxar maquiada para não arriscar que ele chegasse e pudesse controlar o desejo de beija-la.

Aqui pensando lá


#"Exposição Este capítulo não é sério" - Machado de Assis


Mais que nunca é preciso estar aqui e pensar oque fazer para o jantar. Explicar o que é redação. Depende do sentido, explico, e explico os sentidos. É preciso ficar aqui e responder a todas as demandas. Cumprir com os prazos e infrigir formalidade. Mais que nunca preciso pensar na moradia e decidir entre um posto e outro a depender da porcentagem de diferença do valor. Disso depende a próxima semana, para a qual necessito demandar atenção para que não se torne transtornativa e faça com que eu tenha mais vontade de pensar naquela viagem. Planejar, ficar planejando, já é o suficiente. Mas é preciso estar aqui sempre, até quando acordo. Quisera nem dormir para não ter que, além de ficar aqui, ficar parada.